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COMOÇÃO X RAZÃO QUANDO A EMOÇÃO GOVERNA NOSSAS DECISÕES |
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Na coluna anterior, comentei um episódio que gerou grande repercussão: o caso do cachorro Orelha. Bastou a história vir a público para que uma onda de comoção tomasse conta das redes sociais, das conversas de bar e até de decisões precipitadas. Houve indignação, julgamentos instantâneos, pedidos de punição exemplar e uma mobilização emocional intensa. Até uma dupla sertaneja fez música pro cachorro. Poucos, naquele momento, pararam para respirar e refletir com serenidade sobre os fatos, os contextos e as responsabilidades reais envolvidas.
Esse episódio é um retrato fiel do tempo em que vivemos. A comoção tem falado mais alto que a razão. A emoção, legítima e humana, tem ocupado o lugar do pensamento crítico da inteligência humana. Sentir é importante, mas decidir apenas com base no sentimento pode nos levar a erros graves, injustiças e escolhas das quais depois nos arrependemos.
A comoção é rápida, contagiosa e muitas vezes superficial. Ela se espalha em segundos, impulsionada por manchetes fortes, imagens impactantes e narrativas incompletas. Já a razão exige tempo, silêncio e disposição para ouvir todos os lados. Dá mais trabalho. Não rende curtidas imediatas, mas constrói decisões mais justas e duradouras.
No caso do cachorro Orelha, o amor pelos animais, amor que deve ser preservado, acabou se misturando com julgamentos sumários contra pessoas, instituições e até comunidades inteiras, sem que os fatos estivessem plenamente esclarecidos. Quando a razão chega, muitas vezes a sentença emocional já foi dada e o dano, feito. Os adolescentes erraram e muito e devem ser punidos! Porém a comoção nacional foi muito maior que a razão, esquecendo que diariamente mulheres são mortas e maltratadas, abandonados de rua são queimados e trucidados e cadê a comoção nacional para estes seres humanos?
Precisamos reaprender a equilibrar essas duas forças. Emoção sem razão vira impulso. Razão sem emoção vira frieza. O desafio está em sentir, sim, mas pensar antes de agir; se comover, mas buscar compreender; indignar-se, mas não perder a lucidez.
Talvez a maior lição do episódio do Orelha e de tantos outros que vemos diariamente seja esta: uma sociedade madura não é aquela que mais se comove, mas a que melhor transforma a emoção em reflexão e a indignação em atitudes responsáveis. A razão não elimina o sentimento; ela o orienta. E hoje, mais do que nunca, precisamos dessa orientação.
Até a próxima

